A civilização e o controle dos instintos: a forma imposta aos homens para regular a vida comum.
A civilização surge como uma espécie de proteção ao homem. Através dos agrupamentos, o homem estabelece uma organização de relações, que implica os benefícios de sobrevivência, porém se têm, como imposição pela coletividade, os encargos dos sacrifícios dos instintos por este indivíduo. Troca-se o impulso do prazer total pela segurança de se viver em uma comunidade. A cultura surge por este fator de agrupamento visando à sobrevivência, e traz os elementos deste acordo ao indivíduo logo após o nascimento. São eles, os usos, costumes, morais, dogmas, preceitos, dentre outros mecanismos de tentativa de massificação do pensamento. A civilização é definida por Freud (1930-1936, p.33):
Basta-nos então repetir que a palavra “civilização” designa a inteira soma das realizações e instituições que afastam a nossa vida daquela de nossos antepassados animais, e que servem para dois fins: a proteção do homem contra a natureza e a regulamentação dos vínculos dos homens entre si.
Com isto, o homem para se proteger do perigo da natureza externa sacrifica, em boa parte, a sua natureza interna, pois somente desta maneira poderá manter relações civilizatórias com o outro, uma vez que sem estes sacrifícios individuais dos instintos seria impossível o agrupamento surgir e permanecer. E isso acarretaria dificuldades de sobrevivência do homem perante a natureza, devoradora dos mais frágeis, sendo que o homem sem agrupamento é totalmente vulnerável.
Esta
estrutura de civilização não é sustentada somente pela necessidade de
agrupamento tendo como finalidade à sobrevivência da espécie, se assim fosse,
talvez, teria se desvanecido. Mas se fundamenta em construções do homem ideal,
direcionando o desejo instintual ao desejo transcendente de um homem perfeito.
(FREUD, 1930-1936, p.36): “[...] construções ideais dos homens, suas concepções
de uma possível perfeição dos indivíduos particulares, do povo, de toda a
humanidade, e as exigências que colocam a partir dessas concepções”. Estas concepções
do homem ideal são sustentadas pelos ensinos religiosos e pelas especulações
filosóficas. Se exige do indivíduo “a estima e o cultivo das atividades psíquicas mais elevadas, das realizações
intelectuais, científicas e artísticas, do papel dominante que é reservado às
ideias na vida das pessoas” (FREUD, 1930-1936, p.36). Estas construções ideais
favorecem conceitos como de justiça, que impedem os mais fortes de destruírem
os mais fracos, fazendo-lhes obedecer a um ordenamento legal; este aparato
social condena a “força bruta”, apregoando que o bem pertence ao homem justo e
misericordioso.
Ainda
que a liberdade individual existisse, ela não podia ser exercida plenamente
pelo homem fraco, pois a força bruta do mais forte sempre prevalecia, era um
período de autotutela, cada um defendia o seu espaço, e isso trazia desvantagens
ao homem comum, aquele sem porte físico avantajado e sem poderio bélico. A cultura
não produz a liberdade individual, ela a sacrifica em nome da coletividade,
porém, sem a cultura o homem, dificilmente, poderia exercer o mínimo de
liberdade individual. Isso parece uma espada de dois gumes. “A liberdade
individual não é um bem cultural. Ela era maior antes de qualquer civilização,
mas geralmente era sem valor, porque o indivíduo mal tinha condição de
defendê-la”.(FREUD, 1930-1936, p.38). Estas restrições à liberdade, criando-se
a cultura, garante aos mais fracos a possibilidade de se ter um ordenamento
jurídico, dogmas religiosos e especulações filosóficas que os protegem dos mais
fortes.
Porém,
surgem conflitos através de indivíduos requerendo esta liberdade individual,
sendo estes penalizados pelo ordenamento jurídico ou pela reprovação social,
ainda que em um número reduzido; mas buscando prevenir demandas maiores de
liberdade individual, a sociedade busca amenizar estes sacrifícios instintuais
criando mecanismos de compensação e desestimulando rebeliões por parte dos inconformados.
“Boa parte da peleja da humanidade se concentra em torno da tarefa de achar um
equilíbrio adequado, isto é, que traga felicidade, entre tais exigências
individuais e aquelas do grupo, culturais”(FREUD, 1930-1936, p.38). Essa
tentativa de equilíbrio entre o indivíduo e o coletivo conduz à cultura a se
reconfigurar sempre, visando compensar o homem em suas renúncias.
A questão decisiva consiste em saber se, e até que ponto, é possível diminuir o ônus dos sacrifícios instintuais impostos aos homens, reconciliá-los com aqueles que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes uma compensação. (FREUD, 1997, p.3).
Outro
ponto que vale salientar, é que o controle da civilização sobre os instintos do
indivíduo passou a servir o interesse da minoria, sendo um poder sobre a
maioria. As compilações de normas morais, éticas, legais, religiosas, dentre
outras, não são apenas motivadas à organização do agrupamento social, o que não
se nega que sem elas era impossível uma vida em comunidade, mas são ideais
estimulados para favorecer o interesse de pequenos grupos sobre uma massa
populacional maior. Disse Freud (1997, p.12):
Esse fato psicológico tem importância decisiva para nosso julgamento da civilização humana. Onde, a princípio, poderíamos pensar que sua essência reside no controle da natureza para o fim de adquirir riqueza, e que os perigos que a ameaçam poderiam ser eliminados por meio de uma distribuição apropriada dessa riqueza entre os homens, parece agora que a ênfase se deslocou do material para o mental. É tão impossível passar sem o controle da massa por uma minoria, quanto dispensar a coerção no trabalho da civilização.
Portanto,
o indivíduo, com os seus instintos primitivos, representa um perigo à ordem da
sociedade, sendo que o mesmo deve reprimir estes impulsos e desejos contidos na
sua natureza humana em busca de proteção e segurança que o agrupamento oferece.
A sociedade cria normas e associações em busca deste ordenamento social, pois o
indivíduo não pode ser um fim em si mesmo, mas um ser padronizado inserido nas
relações sociais. E isto deveria conter apenas benefícios, mas tem seus preços
altos, além dos sacrifícios instintuais, se tem a neurose como estraga prazer
desta ordem social.
Descobriu-se que o homem se torna neurótico porque não pode suportar a medida de privação que a sociedade lhe impõe, em prol de seus ideais culturais, e concluiu-se então que, se estas exigências fossem abolidas ou bem atenuadas, isto significaria um retorno a possibilidades de felicidade (FREUD, 1930-1936, p.38).
Duvida-se
que o estágio primário ofereceria a felicidade, uma vez que em ambientes de
autotutela a liberdade individual do fraco é suprimida. Ainda falando do
contexto civilizatório, o desvio desta visão coletiva acarretaria em rótulos de
um ser anormal e destrutivo da boa convivência social. Por outro lado, o que
prevalece é o domínio da minoria sobre a maioria, pois estes utilizam estas
ferramentas coercitivas legais, tais como: Leis e normas jurídicas, ou fazem
isto utilizando a religião, com dogmas que pressupõe um castigo divino no caso
de desobediência a estas normas; ou também por meios morais de condutas costumeiras
e aprovadas pela sociedade, sendo que o não cumprimento destas regras ocasiona
uma rejeição social. Desta maneira, a civilização consegue amenizar os
instintos humanos, pois sem isto seria inviável uma sociedade.
Referências
FREUD, Sigmund. (1930-1936): O mal-estar na civilização e outros textos. São Paulo: Companhia
das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão. Rio de Janeiro; Imago, 1997.

Freud tem a impressão que uma minoria soube utilizar a coerção para impor-se sobre uma maioria e que estas “dificuldades” não pertence à natureza da “própria civilização”, mas deriva de “imperfeições das formas culturais que até agora se desenvolveram”. Freud diz, que apesar dos avanços científicos e tecnológicos, a humanidade progrediu muito pouco no que diz respeito aos “ser humano” e assim como em seu tempo, agora nos tempos atuais somos chamados novamente a questionar “se vale a pena defender a pouca civilização assim adquirida”. O autor relata que toda civilização se desenvolve através da “coerção e da renuncia ao instinto”, e que precisa-se considerar as “tendências destrutivas” , “antissociais” e “anticulturais” , neste caso, uma grande maioria com estas tendências são o bastante para determinar seu comportamento na sociedade humana.
ResponderExcluirNestas eleições podemos observar como muitas pessoas se comportaram em relação ao futuro do país, e vieram à tona muitos assuntos que antes eram “velados” e agora pessoas divergem sem ao menos buscarem referências sólidas e argumentos válidos, percebemos uma perseguição aos historiadores e são feitas críticas sem análise às análises críticas feitas, e muitas pessoas se deixam levar por pensamentos rasos e sem interesse de pesquisar quanto mais de contextualizar a história e o que ela ensina sobre fatos passados que insistem em voltar cada vez mais intenso em épocas diferentes.
Freud argumenta que a civilização foi criada por nós como uma forma de defesa contra a natureza e contra nosso instintos. Pois se não vivêssemos em uma civilização nossas vidas não exigiriam restrições quanto aos nossos extintos. Para o autor, se não houvesse civilização ou se esta fosse abolida, nós viveríamos em condições muito mais difícil de suportar, pois mesmo que pudéssemos seguir nossos instintos sem punição alguma, a própria natureza daria conta de nos destruir mais facilmente e devido a necessidade de sobreviver por mais tempo e para nós proteger de nós mesmos, foi criada a civilização.
ResponderExcluirFreud, analisa a origem da religião sob o aspecto psicológico no individuo. Para ele, a religião é uma ferramenta capaz de domar os instintos que se seriam prejudiciais a harmonia ética social. A religião é, segundo Freud, a maneira de o homem preencher o sentimento de desamparo diante do mundo. Freud busca ainda destacar a natureza ilusória da religião enraizada nos sentimentos infantis. A religião é ainda a causa da atrofia intelectual do homem, pois nela ele se vê preso em crenças irracionais, puramente ilusórias, assim ele perde até mesmo sua liberdade de consciência, ficando dependente de uma fantasia.
ResponderExcluirNatasha Gonçalves