A sexualidade em Freud: O período de latência como fator de socialização.



Este é o período em que a energia da libido torna-se deslocada, não mais visando seus objetivos sexuais, mas se direcionando, de forma sublimada, para o desenvolvimento social e intelectual da criança (FIORI, 1981). Este processo é fundamental para estabelecer um momento de intensa absorção de valores sociais, regras, cultura, padrões e crenças por parte desta criança, proporcionando uma socialização do indivíduo. E esta energia é fonte da produção humana, apesar de não encontrar-se direcionada aos objetos sexuais, impulsiona o desenvolvimento social e suas relações padronizadas.
Esta energia da libido não cessa; apenas se desloca, neste período. Expõe Freud (1980a, p. 239):
Durante este período, a produção de excitação sexual não é de forma alguma interrompida, pois continua e produz uma reserva de energia que se utiliza em grande parte para finalidades não sexuais – ou seja, por um lado, contribuir com os componentes sexuais para os sentimentos sociais e; por outro (através da repressão e da formação reativa), construir as barreiras subsequentemente desenvolvidas contra a sexualidade.

Além de implicar o desenvolvimento de uma civilização, idealizada por valores superiores, o período de latência é causa de futuras barreiras contra a sexualidade do próprio indivíduo, podendo incliná-lo ao surgimento interno de uma neurose, uma vez que este impulso reprimido pode ocasioná-la. O período de latência é consequência do complexo de Édipo, onde se inicia fortemente a repressão e o surgimento do Superego; mas na fase de latência há uma mudança de foco, a criança passa a se afastar um pouco dos pais, antigos objetos, e se direciona a outras pessoas, novos objetos de desejos no mundo. Seria como se houvesse um abandono em parte do complexo de Édipo pela criança. Diz Freud (1980b, p.221):
As catexias de objeto são abandonadas e substituídas por identificações. A autoridade do pai ou dospais é introjetada no ego e aí forma o núcleo do superego, que assume a severidade do pai e perpetuaa proibição deste contra o incesto, defendendo assim o ego contra o retorno da catexia libidinal. Astendências libidinais pertencentes ao complexo deÉdipo são em parte dessexualizadas e sublimadas(coisa que provavelmente acontece com toda transformação em uma identificação); e em parte são inibidas em seu objetivo e transformadas em impulsos de afeição [...] Esse processo introduz o período dalatência, que agora interrompe o desenvolvimentosexual da criança.

A repressão da sexualidade na latência é consequência do complexo edípico, porém agora, com a energia sexual deslocada para outros objetos, de maneira sublimada; E isso enriquece o surgimento de novas relações formadas pela criança com outras pessoas de fora do universo familiar, possibilitando o surgimento do desenvolvimento intelectual e do pensamento, conduzindo-a a absorção de valores e ordenamentos fora do âmbito do lar. A criança interage com outras pessoas, mesmo obtendo a desvantagem do aparecimento da vergonha, também aprende a distinguir o público do privado (URIBARRI, 2012). Sendo isto um processo de socialização.
Neste período o Ego se fortalece em relação às exigências do Id e do Superego; trazendo uma conscientização de mais autonomia em busca de novos conhecimentos e enfraquecendo a dependência em relação aos pais; ao mesmo tempo em que a criança busca uma aprovação de outros ao redor e aumenta o nível de relações com o ambiente e com os novos colegas, professores, padeiro, comerciante, vizinho e tantos outros que são inseridos no novo mundo desta criança.  Assim pensava Anna Freud (1936/2006, p.103):
Ele tem agora tempo suficiente para dedicar-se a outras tarefas e adquire novos conteúdos, conhecimento e capacidades. Ao mesmo tempo, torna-se mais forte em relação ao mundo exterior e menos impotente e submisso, deixando de encarar o mundo como a entidade onipotente que lhe parecia antes. Cessa a dependência completa dos pais e a identificação começa ocupando o lugar do amor-objeto.


Portanto, a fase de latência da criança não implica apenas na incubação da energia da libido, sendo que esta não se acaba, mas também no deslocamento para outros objetos no mundo. Foi dito que este mecanismo de deslocamento, por sublimação, não é um simples fator na história civilizatória humana, mas essencial; uma vez que sem esta canalização da energia libidinal seria improvável se manter relações humanas; assim como não haveria absorção de valores e regras por parte da criança, o que dificultaria a manutenção de uma sociedade, sendo que o pilar de todo agrupamento encontra-se na capacidade de transmitir os seus valores às próximas gerações. Essa repressão sexual que se inicia no complexo de Édipo gera o período de latência desta pulsão, direcionando-a para produção de outros meios necessários à sobrevivência humana, como o imprescindível agrupamento. Claro que, isto pode trazer como consequências problemas psicológicos como as neuroses, pois, mais para frente, a criança será um adulto com mecanismos de repressão ao seu conteúdo sexual. Mas sem este controle de pulsões se inviabiliza uma formação de sociedade, então, parece que isto é um mal necessário, pois sem agrupamento, dificilmente, se preserva a espécie humana sobre a face da terra, e sem a canalização desta energia para outros objetos não se tem sociedade.

Por Fabrício Paixão


Referências


FIORI, Wagner da Rocha. Teorias do Desenvolvimento: Conceitos fundamentais: modelo psicanalítico. São Paulo. Cortez, 2003.

Freud, A. (2006). O ego e os mecanismos de defesa (F. Settineri, trad.). Porto Alegre, RS: Artmed. (Trabalho original publicado em 1936).

Freud, S. (1980a). Três ensaios para uma teoria sexual. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão,2014 I volume 25 I número 2 I 155-161 161trad., Vol. 7, pp. 123- 252). Rio de Janeiro, RJ: Imago.(Trabalho original publicado em 1905).

Freud, S. (1980b). A dissolução do complexo de Édipo.In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão,trad., Vol. 19, pp. 215-224). Rio de Janeiro, RJ: Imago.(Trabalho original publicado em 1924).

Urribarri, R. (2012). Estruturação psíquica e subjetivação da criança em idade escolar: o trabalho da latência (E. R. Sang, trad.). São Paulo, SP: Escuta.


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