O vínculo de Freud com a mãe e a influência desta relação na teoria psicanalítica do complexo de Édipo.
Nas
grandes produções humanas, principalmente no campo intelectual, não é difícil
perceber que a teoria está inerente ao histórico de vida do teórico. Já dizia o
filósofo alemão: “gradualmente foi se revelando para mim o que toda grande
filosofia foi até o momento: a confissão pessoal de seu autor, uma espécie de
memórias involuntárias e inadvertidas [...]” (NIETZSCHE, Para além de bem e mal
– prelúdio de uma filosofia do porvir, § 6). Com Freud não podia ser diferente;
é percebível a influência de seu contexto familiar em suas teorias, quando se
tem uma análise apurada dos seus dados biográficos. Em um destes fatores
influenciadores em suas teorias, advindos do contexto familiar, a relação de
Freud com a mãe torna-se interessante de se investigar e refletir, uma vez que
o próprio pai da psicanálise expõe este afeto nutrido por uma paixão, que
influencia na ideia do complexo de Édipo.
Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei também no meu caso, a paixão pela mãe e o ciúme do pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância (...) Sendo assim, podemos entender a força avassaladora de Oedipus Rex (...) a lenda grega capta uma compulsão que toda pessoa reconhece porque sente sua presença dentro de si mesma. Cada pessoa da plateia foi, um dia, em germe ou na fantasia, exatamente um Édipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realização de sonho aqui transposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do seu estado atual. (Freud, 1897/1996, p. 316)
Freud
foi um homem de bastante conhecimento cultural, essa paixão pela mãe foi por
ele encontrada também em personagens da literatura mundial, como no Édipo, de
Sófocles, e no Hamlet, de Shakespeare. A partir destas leituras e de
posteriores análises, conclui em ser este complexo um evento universal do
início da infância, porém, esta conclusão só foi possível em razão de verificar
que possuía este mesmo sentimento. Ou seja, uma análise tornou-se possível e
comprovada por uma autoanálise. Torna-se evidente que o complexo de Édipo é
mais uma confissão do que uma constatação. Universaliza-se o específico. Isto é
bastante comum nas teorias, o que se passa no quintal, imagina-se que atinge o
mundo, o que se passa na subjetividade e particularidade estende-se para o
outro, como se todos fossem afetados pelo mesmo fenômeno. Nem sempre uma
leitura de si, vale para definir o outro. Aliás, nunca é o melhor caminho. Cada
ser humano é singular na existência, porque foram afetados por ambiente,
contexto, pessoas e objetos diferentes.
Universalizar
uma teoria no campo dos processos mentais é um reducionismo, não levar em
conta, infinitas variáveis que modelam os desejos individuais, seria uma
tentativa inútil de enquadrar o outro em pensamentos particulares. A melhor
formar de compreender o que se passa com outro, é voltar às coisas mesmas, “deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se
mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo”. (Heidegger, 2002, p. 65).
Portanto, a nítida influência da paixão pela mãe, por parte de Freud, na teoria
do complexo de Édipo, é uma amostra de que os teóricos, na maioria, transformam
aspectos íntimos em universais.
Referências
Freud,
S. (1996). Carta 71. In S. Freud, Edição
standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J.
Salomão, trad., Vol. 1, p. 316). Rio de Janeiro:Imago. (Trabalho original
publicado em 1897).
Heidegger,
M. (2002). Ser e Tempo. Petrópolis:
Vozes.
Nietzsche,
Friedrich. Para além do bem e do mal:
prelúdio de uma filosofia do futuro. Trad. Paulo Cezar de Souza. São Paulo:
Companhia das Letras, 1992.

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